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Paulina Chiziane: Entre Contar e Escrever Histórias

Paulina Chiziane nasceu em 1955, em Manjacaze, na província de Gaza, localizada na região sul de Moçambique. Oriunda do povo tsonga, foi a primeira mulher a publicar um livro em seu país. Contudo, não se autodenomina romancista, mas sim contadora de histórias, tendo como inspirações os contos em volta da fogueira, bem como as histórias que ouve de mulheres presentes em seu cotidiano. Tal experiência proporciona um diálogo com Walter Benjamin, quando nos lembra que “a experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte que recorreram todos os narradores” (BENJAMIN, 1935/1936, p.198). Chiziane faz questão de pontuar que sua base literária é a tradição oral.

Oriunda de família monogâmica, Paulina Chiziane, com os seus pais e sete irmãos habituou-se a ouvir as histórias contadas pela avó em volta da fogueira. Atenta a essa cultura, a autora foi se dando conta de que a história oral era também um instrumento de difusão de conceitos e comportamentos sociais. No que se refere à representação feminina, conta-nos:


Nas histórias onde haviam mulheres, elas eram de dois tipos: com boas qualidades, bondosa, submissa, obediente, não feiticeira. Outra era má, feiticeira rebelde, desobediente, preguiçosa. A primeira era recompensada com um casamento feliz e cheio de filhos; a última era repudiada pelo marido, ou ficava estéril e solteirona. (CHIZIANE in AFONSO, 1994, p. 14)

Percebe-se que os povos tsonga transmitiam representações femininas a partir do prisma que fundamentava a mentalidade e a formação de meninas e meninos. Nota-se quais eram os comportamentos exigidos pelo povo em questão para que uma menina pudesse se tornar mulher. Segundo Chiziane, a vida tsonga gira em torno das atividades das mulheres mais velhas do grupo, como pilar o milho, o amendoim e lavar roupas no rio – ritmadas e sonorizadas pelas cantigas que expressavam lamentos, mágoas, murmúrios, dores, suspiros e angústias femininas.

Descortinar as inúmeras considerações que Chiziane ressalta ao falar de sua trajetória e experiência enquanto mulher tsonga e moçambicana é também encontrar vestígios de uma cultura que ultrapassa as páginas escritas nos livros da autora. Todos esses demarcadores se explicitam quando analisamos os trechos que Chiziane salienta quando se refere aos atributos morais das histórias que objetivava enquadrar o ser/estar feminino dentro de uma idealização pautada na submissão, obediência e no distanciamento da feitiçaria. Na tomada dessa postura, a recompensa feminina viria por meio de um “casamento feliz e cheio de filhos”.

Chiziane deixa evidente que, para os tsonga, ser uma mulher feliz depende da submissão delas em relação aos seus maridos. Em outras palavras, a mulher perfeita é uma idealização masculina e cristã. Sua inventividade está na boca e no imaginário dos homens, mesmo considerando que seja propagada pelas mulheres nas inúmeras vezes responsáveis pela orientação educacional de seus filhos e suas filhas.

A partir desse trecho, é possível também refletir sobre elementos centrais das culturas bantu, pois essa invenção do ser mulher é compartilhada por outros povos que transcendem as fronteiras culturais e geográficas de Moçambique. É comum também entre os bantu que o casamento e o número de filhos definam o que é (ser) homem e mulher nas sociedades. As mulheres acabam carregando a responsabilidade de garantir aos homens que sejam reconhecidos e respeitados socialmente através dos filhos que elas geram. Por outro lado, no caso da impossibilidade de gerarem filhos, impõem-se um não lugar social, uma não inserção social.

A vida e obra de Paulina Chiziane nos permite refletir sobre a condições de mulheres moçambicanas e suas vicissitudes; “A condição social da mulher inspirou-me e tornou-se meu tema. Coloquei no papel as aspirações da mulher no campo afetivo para que o mundo as veja, as conheça e reflita sobre elas”. (CHIZIANE, 2004, p. 160).

A oralidade também constitui um centro de referência da potencialidade criativa para a escrita da autora, podendo ser um ponto de inflexão entre as gerações de escritores que a precederam, bem como uma ruptura estética ancorada na oralidade, que marca a sua literatura. Parece ainda haver na perspectiva de Chiziane uma ruptura com o projeto assimilacionista e/ou nacionalista. A literatura escrita em Moçambique desenvolveu-se como um espaço predominantemente masculino no qual escrever e publicar significava romper com uma barreira ancorada, sobretudo, no machismo. Em sua dissertação, Robert (2010) traça o percurso de Chiziane ao chegar com o seu livro embaixo do braço na sede da AEMO (Associação de escritores Moçambicanos) e se vê obrigada a enfrentar diretamente Eduardo White . Segundo o autor, a própria Chiziane afirmara:


Eu zanguei-me e ameacei Eduardo White: Olha se você pensa que é homem então, Levante-se já (...) Ninguém esperava esse tipo de reação. O Eduardo pensou que eu estava a brincar, depois que viu que era sério... e desapareceu. E depois a coisa mudou de figura. “Esta mulher é brava, é louca” diziam. Esta mulher deve ser escritora. (ROBERT, 2010, p. 51)

Desde o primeiro livro de Paulina Chiziane até os dias de hoje, a crítica moçambicana lança um olhar duro e preconceituoso para as suas obras, baseado nas discordâncias em relação aos temas e discussões propostas pela autora, mas sobretudo aportado nos preconceitos e conceitos que carregam como princípios. É evidente que a crítica em 1990, quando Chiziane publicou o seu primeiro livro, Balada de Amor ao vento, foi muito mais dura e inflexível, pois além de primeira mulher a publicar, o conteúdo do livro interpelava os fundamentos culturais e interculturais presentes na sociedade moçambicana no pós-independência.



Foca Lisboa/UFMG

As barreiras impostas a Chiziane não foram o suficiente para intimidá-la ou impedi-la de dizer o que julga necessário com o objetivo de contribuir para a transformação da condição das mulheres que se encontram em situação de subalternidade em decorrência das culturas e estruturas sociais vigentes em Moçambique. Seu campo temático é vasto e complexo – trata de dilemas sociais, tais como: as visões de mundo dos bantu, a dominação portuguesa, o questionamento do colonialismo, a crítica à política dos atuais governos moçambicanos e pós-independência, a identidade nacional, as relações raciais, a tradição e modernidade ou a cultura moçambicana e europeia partindo das relações de gênero.

Enquanto escritora nascida em África, no momento em que homens e mulheres já se organizavam em prol da luta pela independência, a literatura escrita já era um dos meios de comunicação utilizados não só para sensibilizar e chamar os indivíduos letrados de Moçambique como também para internacionalizar a luta pela independência comunicando e construindo um sentimento de “unidade” entre os moçambicanos e demais sujeitos de outras colônias africanas.

Estamos diante de uma autora importante para a história da literatura moçambicana, com estilo, estética e engajamento político, certamente já deixou marcas centrais nos debates literários, culturais e de gênero em seu país registrando, assim, por meio de seus escritos, a pertinência das vozes femininas junto à construção de uma sociedade mais justa e igualitária.


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