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NOTAS SOBRE EUCLIDES DA CUNHA

Atualizado: 21 de Jan de 2021

Por Ronaldo Vitor.

Gravura de D. Urpia, Arraial de Belo Monte, Canudos


Em 1905, o carioca Euclides da Cunha embarcou em direção ao Norte do país, como engenheiro enviado para a missão do Alto Purus, na Amazônia brasileira. Longa e fatigante, a viagem que levou o imortal da Academia Brasileira de Letras aos rincões da maior floresta tropical do planeta é ainda mais interessante quando entendemos o objetivo que se propunha com tal embrenhada: traçar as fronteiras do Brasil com o Peru.


A presença de Euclides no processo de demarcação do território nacional possui elevado grau de destaque quando refletimos sua atuação pública no processo de formação nacional. Para além do cotidiano das expedições, movimentações ou equipamentos utilizados, o tracejar das bordas de um Estado ainda em formação caracteriza um dos mais fortes símbolos daquilo que Eric Hobsbawn leu como A invenção das tradições [1]. Ao auxiliar no mapeamento e institucionalização dos limites do território, Euclides também colaborou para o entendimento das linhas mestras do Brasil moderno, recém tornado República.


Digo também porque Os Sertões (1902), a obra máxima do autor, é uma profunda reflexão sobre a identidade nacional, o trabalho intelectual na primeira república e os significados políticos da conturbada saída do Império. Escrito nos cinco anos posteriores ao acompanhamento presente do Massacre de Canudos, a narrativa de Euclides é fruto do confronto de uma vida seguida em “linha reta”, isto é, das sólidas crenças que adquirira desde o período de formação na Escola Militar, como a inspiração racionalista, a aposta romântica nos valores da Revolução Francesa, a entusiasmada defesa republicana e o desejo maior que si pelos conceitos de civilização e progresso; contra os traumáticos feitos militares do ataque a população baiana. É, portanto, do choque entre o ideal civilizador e sua ação que nasce o motivo para a produção do ensaio.


Sendo ponto de inflexão entre repertórios intelectuais prévios e a frustração com o que foi visto próximo ao rio Vaza-barris, Os Sertões foi estruturado de modo a propor mais do que uma análise do conflito, mas uma compreensão histórica que justificasse a ação republicana sobre a comunidade liderada por Antonio Conselheiro. Com esse propósito em mente, o autor-engenheiro desenvolveu um texto centrado numa organização naturalista e determinista que entendia a linearidade no desenvolvimento História: o meio físico é visto como determinante das relações humanas, já essas são decorrentes das características raciais dos grupos que, em integração com o meio, criam suas condições de participação no processo histórico. Não à toa, a estrutura do livro é dividida em três capítulos: a Terra, o Homem e a Luta. Dessa maneira, sob o argumento de Euclides, para se entender o que ocorreu em Canudos é preciso compreender além do momento e da região, mas sim o conjunto de determinações raciais e geográficas que justificassem a chegada até ali.


Nesse ponto, dois destaques são interessantes, um deles diz respeito ao desconhecimento que o Estado brasileiro possuía sobre sua população e território. Roberto Ventura [2] aponta que as primeiras campanhas contra Canudos, por exemplo, foram feitas sem mapas, dando ênfase no papel que Teodoro Sampaio e Euclides tiveram para o fornecimento de material ao governo Campos Salles. O segundo ponto trata da aproximação metodológica de Os Sertões com o trabalho do bávaro Karl F. Von Martius, na medida em que ele segue alguns preceitos do famoso Como se deve escrever a história do Brasil (1843), tanto em sua argumentação dos três grupos étnicos formadores da nacionalidade (brancos, africanos e indígenas), como na utilização de fontes variadas para a historiografia [3].


Aliás, é sobre a forma como se narra os acontecimentos do país que repousa a maior parte dos debates propostos por Euclides. Entendendo o Brasil como o trágico encontro de antíteses, o engenheiro carioca articula suas percepções partir da oposição entre o Sertão e o Litoral, o Sul e o Norte, o bandeirante e o padre, etc. Com isso, são mobilizados repertórios que abordam a formação urbana, econômica, religiosa e social brasileira. Essas oposições, no entanto, não aparecem apenas nas práticas humanas, mas também na forma como o espaço se fez por si. Nas últimas páginas do primeiro capítulo, escreve: “a natureza compraz-se em um jogo de antíteses” [4].


Palco para tragédias vindouras, em Os Sertões as antíteses se encontram no caldeamento das três raças, desenvolvendo uma forte apologia de responsabilização pelo fracasso histórico ao tema da miscigenação, vista como traço degenerativo da qualidade moral e produtiva dos sujeitos, principalmente motivada pela presença das populações africanas e indígenas:

E o mestiço é um intruso. Não lutou, não é uma integração de esforços; é alguma coisa de dispersivo e dissolvente; surge, de repente, sem caracteres próprios, oscilando entre influxos opostos de legados discordes. A tendência à regressão às raças matrizes caracteriza sua instabilidade [5]

Parente das teorias cientificistas que estiveram em voga no Brasil a partir dos anos 1870 e que enxergavam uma centralidade das hierarquias raciais na forma social, o texto euclidiano, contudo, faz uma aposta no sentido da evolução brasileira a partir da integração urbana. Se há, de fato, clivagens entre a organização territorial e populacional que foram sustentadas pelo meio e pelas presenças afro-indígenas; a superação dessas contradições não poderia apostar na valorização positiva da miscigenação ou no embranquecimento, já que ambas são perspectivas que levariam à suposta unidade racial, dada pelo autor como impossível, visto o tamanho do território e as exponenciais formas de interação entre seus elementos constituintes.


Sendo assim, para Euclides, não é a partir de critérios raciais que o país seria capaz de criar coesão nacional que superasse as antíteses, mas sim com o investimento que permitisse a integração e comunicação dentro do território. A visão positivista e evolutiva do progresso continua orientando tal percepção, ainda que a unidade almejada não esteja mais centrada em critérios raciais, ou seja, valorizam-se os elementos da ciência, da tecnologia, de uma nova urbanidade que alinhasse diferentes grupos raciais num sentido comum. Não á toa, uma das principais defesas feitas pelo intelectual é a necessidade de conexão dos centros urbanos com os interiores do país pela criação de estradas de ferro:

Não teremos unidade de raça. Não a teremos talvez nunca
Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma. Invertemos, sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa evolução biológica reclama a garantia de evolução social
Estamos condenados a civilização.
Ou progredimos, ou desaparecemos.
A afirmativa é segura [6]


É com o desenrolar dessa argumentação que em Os Sertões o Massacre de Canudos ganha tonalidades de desumanização pela ação da Capital, uma vez que impede a possível integração, e civilização de sujeitos que, naquele momento, Euclides leu como potencialmente capazes de evoluir num sentido social único. Ainda que um dos principais incentivadores da guerra, o contato direto do autor com o confronto muda sua percepção e acelera a já incipiente crítica à Republica.


Assim como para muitos intelectuais, a viagem é tida como experiência de transformação pessoal, capaz de reorganizar visões de mundo e propostas de intervenção. No caso euclidiano, Canudos foi ponto de tensão entre as crenças de sua formação acadêmica e o otimismo trazido pelo século das luzes. Essa inflexão, ademais, não significou o abandono total de suas perspectivas teóricas – o evolucionismo, o positivismo e o naturalismo, pois todos continuaram impávidos com seus desdobramentos raciais, o que coloca Euclides no hall conservador de seu tempo – mas sim o redirecionamento para uma nova forma de intervenção pública próxima àquilo que Nicolau Sevcenko tratou como “condição ética do homem de letras” [8]

Brevíssimo apontamento sobre o ensaio


A escrita de Os sertões é caracterizada pela dramaticidade e barroquismo, na medida em que pesa no texto os excessos de adjetivação e descrição. Acrescido de um moroso vocabulário técnico, o livro configura em seu estilo o tratamento da história como tragédia, onde a falha, o fracasso e a morte são pré-determinadas e sem possibilidade de salvação. Desde as primeiras linhas do livro sabemos que não há alternativa ao grupo de Conselheiro, visto como “gnóstico bronco”. Ausente de sociologia, o texto trata os envolvidos no massacre a partir de perspectivas psicológicas, biológicas e morais, não das tradições de lutas por terra, liberdade e autonomia que tanto marcaram o cotidiano da população pobre no Brasil, em sua maioria negra.


Estilizado, o conflito ganha contornos épicos que se imbricam com a forma dramática e a estrutura político-intervencionais que movimenta o texto para o campo dos debates sobre interpretações e intervenções no país. Essa linguagem ora envolvente, ora árdua, onde não se delineiam bem as fronteiras da História e da Literatura, talvez tenha sido um dos principais pontos de tensão na leitura e recepção do texto, muitas vezes tratado como romance. É o que vemos nas críticas contemporâneas de José Veríssimo e Silvio Romero, mesmo que com perspectivas diferenciadas.


Como apontamento final, vale destacar um posicionamento da característica ensaística da obra maior de Euclides da Cunha. Sendo texto que se propõe a interpretar, participar e mobilizar o debate público de seu tempo, mas sem perder o cuidado narrativo e estético, Os Sertões se enquadra num conjunto de textos que o alemão Max Benes entendeu como gênese pensante de um tipo textual que ocupa posição intermediária na classificação dos gêneros literários [8]. Dadas as características do subdesenvolvimento, a condição periférica e a necessidade de criação de um pensamento social sobre a própria identidade; na América Latina o livre pensamento associou-se com as demandas políticas, tal como o trabalho intelectual, o que conjuntamente movimentou a intervenção cidadã na elaboração de nossos mais interessantes ensaios. É nesse meandro que se encontram as centenas de páginas d’Os Sertões.

[1] HOBSBAWM, Eric; RANGER, Erich. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

[2] VENTURA, Roberto. Euclides da Cunha: Esboço biográfico. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p.156

[3] BERNUCCI, Leopoldo. Pressupostos Historiográficos Para Uma Leitura De Os Sertões. Revista USP, (54), 6-15, 2002.

[4] CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Ubu, 2016, p.60

[5] ______.idem, p.111

[6]. ______.idem, p. 79

[7] SEVCENKO, Nicolaii. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na primeira república. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.97

[8] BENES, Max. O ensaio e sua prosa. Revista Serrote, n.04, 2014. Disponível em: <www.revistaserrote.com.br/2014/04/o-ensaio-e-sua-prosa/>

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