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Literatura e sociedade em Buchi Emecheta e Chimamanda Adichie

Atualizado: 28 de ago. de 2020

Por Marcio Farias* e Rafael Domingos Oliveira**


No artigo “Literatura e subdesenvolvimento”, Antonio Candido, ao analisar a função social da literatura na América Latina e sua relação com o subdesenvolvimento, avaliou o quanto os escritores dessa região contribuíram para a melhor compreensão das características da sociedade, através de suas proposições estéticas e analíticas que muitas vezes foram qualitativamente superiores às contribuições das ciências sociais sobre a mesma matéria. Nesse sentido, a polissemia da forma deu margem à conteúdos negligenciados pelos intérpretes nacionais. Por isso, a função social da arte aqui não foi somente a de elevar a espiritualidade dos seus, possibilitando a catarse do público ou seu estranhamento. Também foi sua função produzir identidade, reconhecimento e o vir-a-ser.


Por outros caminhos, a literatura produzida pela nigeriana Buchi Emecheta acabou cumprindo essa mesma função social: desvelar aspectos da sociedade que a ciência social ainda não havia alcançado com a mesma profundidade. Em Cidadã de Segunda Classe, adentramos, por meio da trama vivenciada pela personagem principal na moderna e contemporânea luta de classes, gênero e raça.


Na obra, originalmente publicada em 1974 e que, apenas há pouco, chegou a ser publicada no Brasil, acompanhamos a trajetória de Adah contra variadas formas de opressão vivenciada por mulheres na Nigéria. Como forma de fugir dessa realidade e encontrar formas mais flexíveis de inserção social, a protagonista vai à Londres, espécie de “terra prometida”, em busca de melhores condições de vida. A busca edênica logo se transforma em inferno, quando Adah compreende os novos dilemas que não apenas repetem os de sua terra natal, como sobrepõe a eles novas camadas de opressão e exploração.


Buchi Emecheta (1944-2017)

As metamorfoses dos dilemas de algumas frações da classe trabalhadora nos centros dinâmicos do Capital tem em Adah seu tipo ideal, figura emblemática que encarna as questões do localismo, conflitos étnicos e identitários, nacionalismo, imigração, relações raciais e racismo, xenofobia e machismo. É o sistema global do capitalismo colocado a olho nu. Sobre a moderna luta de classes na Inglaterra na década de 1970, o personagem Francis diz a Adah, quando esta chega na Inglaterra vinda da Nigéria: “Você deve saber, querida jovem lady, que em Lagos você pode ser um milhão de vezes agente de publicidade para os americanos; pode estar ganhando um milhão de libras por dia; pode ter centenas de empregadas; pode estar vivendo como uma pessoa da elite, mas no dia em que chega à Inglaterra vira cidadã de segunda classe.”


Demorou um tanto para as ciências sociais “captarem" o enigma da raça na composição da nova morfologia do trabalho na Europa. Jean Paul Gaudemar, Guy Standing e Pietro Basso – para citar alguns nomes relevantes - posteriormente ratificam, em outros termos, certos aspectos dessa condição de ser da classe europeia da segunda metade do século XX em diante.


De outro modo, a também nigeriana Chimamanda Adichie também opera nessa chave analítica tendo como foco os Estados Unidos. Do ponto de vista formal, Chimamanda bebe nas fontes de Chinua Achebe e Buchi Emecheta para pensar o tema e a trama. Agora, partindo dessas referências, segue caminho próprio e com estilo e personalidade apresenta não só um retrato do fluxo imigratório negro contemporâneo aos EUA, como destrincha a própria sociedade estadunidense e a essência da luta de classe nesse país, que para ela é “tribalista”.


Ifemelu, personagem principal de Americanah, em dado momento, ao escrever em seu blog sobre sua percepção da sociedade estadunidense contemporânea, diz:


Nos Estados Unidos, o tribalismo vai muito bem, obrigado. Existem quatro tipos: de classe, ideologia, região e raça. Em primeiro lugar, vamos ao de classe. É bem fácil. Ele separa os ricos dos pobres. Em segundo lugar, o de ideologia. Liberais e conservadores. Eles não apenas discordam em questões políticas, mas cada lado acha que o outro é malévolo. O casamento com uma pessoa da outra ideologia é desencorajado e, nas raras ocasiões em que acontece, é considerado espantoso. Em terceiro lugar, o de região. Entre norte e sul. Os dois lutaram numa guerra civil as máculas. Finalmente, o de raça. Existe uma hierarquia de raça nos Estados Unidos. Os brancos sempre estão no topo, especificamente os brancos, de família anglo saxã e protestante, conhecidos como wasps, e os negros estão sempre no nível mais baixo , enquanto o que está no meio depende da época e do lugar.

Há, portanto, uma espécie de teoria de classe nesse livro que, para tanto, lança mão de uma noção (tribalismo) geralmente atribuída às sociedades africanas. Há também a recomposição de um debate muito bem exposto no livro e que também foi tratado com maestria por Toni Morrison quando de suas conferências na Universidade de Havard no ano de 2016, transcritas e depois lançadas no livro A origem dos outros: seis ensaios sobre racismo e literatura, o tema da americanidade: “Esses imigrantes que chegavam aos Estados Unidos entendiam que, se quisessem se tornar americanos ‘de verdade’, precisavam romper, ou pelo menos minimizar muito os vínculos com seu país natal, para assim abraçar sua brancura. A definição de ‘americanidade’, para muitos, (infelizmente) continua sendo a cor”.


O nascimento da nação estadunidense tem na branquitude um de seus alicerces. Nesse sentido, mover contra o racismo é espezinhar o fundamento próprio dessa sociedade. O racismo continua sendo o maior dilema moderno. Chimamanda reconhece, em sua literatura, o dilema central de formação da nação estadunidense, reencenado diversas vezes na literatura daquele país e, sobretudo, naquela produzida por autores negras e negros.


Pela sua condição de “casa no topo da montanha” – espécie de mito fundacional que orienta o destino manifesto da nação -, os Estados Unidos não possuem propriamente um pensamento social vinculado às ciências sociais, como aquele experimentado pela intelectualidade latinoamericana. A função de revisão crítica de sua própria formação foi, quase sempre, exercida através da literatura, muitas vezes de matiz dramatúrgico.


Os autores, nestes casos, ou são estrangeiros in facto, como no caso de Chimamanda, ou são os estrangeiros em sua própria terra, como foi recorrente a definição da experiência negra nos escritos de W.E.B Du Bois e Ralph Ellison. Não seria forçoso, portanto, encontrar em Americanah uma interpretação da estrutura racial e de classe estadunidense, compreendida através do olhar descritivo de Ifemelu, uma imigrante nigeriana. O mundo “olha” para a realidade estadunidense e a interpreta, porque dela participa – inclusive na condição do subdesenvolvimento. Este “outro”, como afirma Toni Morrison uma invenção do discurso branco, repõe a nação criticamente. Ele está em Chimamanda e Toni Morrison, tal como em Alex Hailey, Alice Walker, Maya Angelou, Octávia Butler e James Baldwin. Não aleatoriamente, um dos romances mais importantes deste último chama-se Numa terra estranha, título alusivo à percepção compartilhada entre muitos sujeitos que vivem a outridade refletida na obra de Morrison.


Emecheta e Chimamanda nos convidam, assim, a adentrar uma longa tradição criada e mantida pelos subalternizados da história, que é o pensamento sobre a natureza da formação do mundo moderno. Suas obras narram a modernidade, desfazendo as possíveis armadilhas do pensamento neoliberal que insistem em criar a fantasia do mundo pós-moderno. Ao ler obras de autoras e autores deste calibre estético, compreendemos que as bases fundantes da modernidade – entre elas a hierarquia racial, a sociedade de classes, o sexismo e o papel exercido pela religião na organização social dos corpos e mentes – ainda estão vivas e atuantes.


Indo além de qualquer possível fetichização das chamadas literaturas africanas - que ocupa um lugar privilegiado no imaginário branco contemporâneo - é de fundamental importância ler estas obras para melhor compreender nosso mundo e como participamos do sistema global de produção das desigualdades.


*Marcio Farias é doutorando em Psicologia Social pela PUC /SP, membro do Nepafro.

**Rafael Domingos Oliveira é doutorando em História Social pela USP, membro do Nepafro.

Referências Bibliográficas ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2017. EMECHETA, Buchi. Cidadã de segunda classe. Porto Alegre: Dublinense, 2018. MORRISON, Toni. A origem dos outros: seis ensaios sobre literatura e racismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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