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A tolice da atrasada inteligência brasileira: crítica da crítica sobre a escravidão no Brasil

Por Marcio Farias¹ e Rafael Domingos Oliveira²


O livro escrito por Miguel de Cervantes, sobre as aventuras do engenhoso cavaleiro errante Dom Quixote, ainda hoje fascina leitores mundo afora. O enredo apresenta a história de um fidalgo de meia idade que se entrega à leitura de romances de cavalaria e que numa dada circunstância perde a razão. Por conta disso, passa a viver como um cavaleiro. Nessas aventuras, ele se envolve em uma série de confusões levadas por suas fantasias, e que contrastam com a realidade. O caráter anedótico desse romance tem como pano de fundo a ação de um sujeito em completo descompasso com a sociedade em que está inserido. A cena clássica de sua luta contra moinhos de ventos vistos como gigantes é uma metáfora perfeita sobre o desacordo entre o desenvolvimento das forças produtivas e a ação desse sujeito orientado por uma compreensão equivocada e ultrapassada da realidade.


Outro aspecto do deslumbramento que o livro causa ainda hoje talvez esteja na crítica que subjaz ao desenrolar da trama. Aquele sujeito descontextualizado não é capaz de viver a nova realidade que se apresenta. Sua morte representa uma fuga dessa nova realidade sem fantasia. Em outras palavras, o romance apreende o início do desencantamento do mundo, tão amplamente discutido por autores críticos da sociedade moderna como Max Weber e os filósofos da Escola de Frankfurt.



Ainda assim, a metáfora do “quixotismo” é uma boa possibilidade para significar e orientar a crítica ao atual estado de coisas no campo do pensamento social brasileiro. Temos o nosso cavaleiro errante que pretende desfazer as injustiças e retificar os dantescos cursos tomados pela crítica social brasileira: Jessé Souza. Para ele, toda crítica ao pensamento social brasileiro já foi feita e tem nome e sobrenome: os livros de sua autoria A tolice da inteligência brasileira (São Paulo, Leya, 2015) e A elite do atraso: da escravidão à lava jato (Rio de Janeiro, Leya, 2017). Resta-nos conhecê-los para entender como se deu o movimento de ideias que pensaram o Brasil e que, segundo o crítico, nos imbecilizam.


Jessé Souza, que foi presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), é um cientista social neoweberiano que concilia o clássico autor alemão com o também importante pensador francês Pierre Bourdieu. Nessa linha, Souza se consagrou como um autor que compõe a contemporânea sociologia brasileira, fazendo frente ao que ele chama de “vulgata economicista” que tem em seu panteão figuras de destaque no cenário nacional, como o economista Marcio Pochhman. A ralé brasileira: quem é e como vive (Belo Horizonte, UFMG, 2009) e Os batalhadores: nova classe média ou nova classe trabalhadora? (Belo Horizonte, UFMG, 2010) são obras de sua autoria, já consagradas, e que analisam o Brasil contemporâneo não como sociedade da inclusão, mas através da sua orientação para completar o ciclo de modernização.


Diante dos fenômenos averiguados nessas pesquisas de campo, Souza deparou-se com a dificuldade de explicar o Brasil e voltou aos grandes intérpretes do país. Como não teve chance de minuciar o debate sobre os autores que interpretaram Brasil em seus primeiros livros, publicou posteriormente as obras que caminham nas trilhas de colocar em debate o pensamento social brasileiro. Em linhas gerais, tanto no livro Tolice da Inteligência Brasileira como no A elite do atraso temos uma compreensão de que o pensamento social brasileiro, sobretudo o modernista, carece de cientificismo e logra análises incompletas que reverberam em conservadorismo anti-estado e vangloriamento do mercado. O problema reside no fato de que a intelectualidade brasileira, tanto de direita como de esquerda, para Jessé Souza, reproduzem essas ideias de maneira irrefletida, tolas.


Seus estudos sobre o tema estão dentro de uma retomada importante das interpretações de caráter estrutural da sociedade brasileira e que vão na contra corrente do establishment do pensamento social contemporâneo. Depois de um longo período de declínio das análises macros sobre o Brasil, muito por conta da penetração das correntes pós-modernistas que organizaram a produção do conhecimento nas universidades brasileiras na últimas três décadas, esse debate é providencial, pois recoloca na pauta do dia análises que nos possibilitam pensar projetos de sociedade alternativos ao modelo do Capital, mas levando em conta a realidade concreta brasileira e as suas especificidades.


Outro livro publicado nesse ínterim, Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados (São Paulo, Boitempo, 2014), organizado por Lincoln Secco e Luiz Bernardo Pericás, é um bom exemplo para confirmar certas hipóteses de Jessé Souza. Nessa coletânea de textos sobre pensadores brasileiros que estão contemplados nos 27 ensaios, alguns não podem ser considerados como “intérpretes do Brasil”. O exemplo mais explicito é a inclusão de Paulo Freire na seleção. Ainda que pese a relevância de Paulo Freire, não existe em sua obra um conteúdo que possamos auferir como análise de Brasil. Outro ponto negativo da coletânea é a ausência dos sociólogos Clóvis Moura e Guerreiro Ramos como referências para entendermos a formação do país. Ambos, com diferenças, foram autores que se propuseram a pensar a formação brasileira levando em conta a participação sócio-política da população negra como sujeito político. A amplitude dos estudos desses autores impactou fortemente as mais variadas áreas das ciências humanas brasileiras.


Assim, diante desses impasses, na falta efetiva de autores “clássicos, rebeldes e renegados” na obra em questão, o intento de Jessé Souza se sobressai. No entanto, no campo da produção do pensamento crítico é preciso estar atento ao terreno que estamos pisando como uma saída para não cairmos, mesmo sem saber, em armadilhas, afirmando como novidade determinados debates já consagrados.


No Tolice da Inteligência Brasileira, quando discute o modernismo, o autor faz uma leitura ligeira sobre a obra de Gilberto Freyre, focando sua atenção em Sergio Buarque e em Raymundo Faoro, uma vez que estes autores estariam no mesmo campo analítico que o seu. Assim, a ideia de “patrimonialismo”, presente em ambos, seria uma espécie de “profanação” mecânica dessa categoria que, segundo ele, em Weber não é uma categoria analítica e sim nativa, somente apreensiva para uma dada época da sociedade europeia. Não caberia para pensar a modernidade, sobretudo a específica forma de modernização brasileira.


Essas afirmações, entre outras, geraram debates acalorados. Ele foi muito questionado e criticado. Ainda assim, nesta obra existe um razoável princípio de realidade. Razoável porque aqui já começa sua inclinação à fantasia. Recusa-se a apreender o Brasil e não avança em olhar atentamente o debate sobre a escravidão, que o ajudaria bastante a compreender os sentidos do nosso patrimonialismo, além de desprezar a história do continente africano e dos povos indígenas. E aqui reside o perigo: ele antecipa um debate fundamental, mas não leva a cabo sua investida e queima cartucho de antemão.


Já em A elite do atraso a fantasia aumenta e a realidade passa a largos passos da sua produção. Se volta novamente aos estudos das ideias que conformaram a razão e o senso comum sobre o que é ser brasileiro, neste caso, começando por Freyre. Assim, crê ser ele próprio o primeiro autor a investigar de modo mais detido e crítico o pensamento social brasileiro. Desta maneira ignora toda uma fortuna crítica já bastante revisitada. Negligencia, por exemplo, o livro escrito pelo economista Marcelo Paixão, A lenda da Modernidade Encantada: por uma crítica ao pensamento social brasileiro sobre relações raciais e projeto de Estado-nação (Curitiba, CRV, 2014). Neste livro, o Paixão dos estudos estatísticos sobre desigualdades raciais no Brasil contemporâneo entra de cabeça no debate sobre os pensadores brasileiros, produzindo análises exegéticas desses autores, conciliando com os estudos sobre relações raciais. A obra demonstra a centralidade que não apenas a escravidão, mas o debate das relações raciais, teve para a formação de um pensamento sobre o Brasil.


Mas o “quixotismo” de Souza vai além da conta quando ele tenta se a ver com o debate da escravidão, tema não discutido em sua obra anterior. Se na primeira ocasião inicia sua aventura pelo modernista Sérgio Buarque, agora investe sua espada contra Gilberto Freyre. Porém, o golpe recauchuta e o nosso cavaleiro se vê encantado pelas penadas mágicas do escritor recifense. Logo, a sua Dulcineia é o livro “Sobrados e Mocambos”. Ainda que Freyre, para Souza, seja o inaugurador do racismo cultural entre a inteligência brasileira, neste livro sobre o Brasil oitocentista ele teria superado esse aspecto, apresentando uma interpretação inovadora, ainda que ambígua, sobre o processo de modernização do país. Ora, qualquer leitura atenta de Sobrados perceberá, sobretudo em seus dois últimos capítulos, uma sistematização da mestiçagem que, não apenas reforça a leitura freyriana de Casa-Grande, como a refina.


O quiproquó todo se dá pela série de confusões, digressões e afirmações sem base levadas a cabo pelo nosso cavaleiro errante. Primeiro, porque se equivoca em interpretar o Brasil apenas com hermenêuticas. O pensamento social brasileiro não acontece num vácuo histórico. Enquanto produção ideal do movimento da realidade está inscrito diante das lutas contraditórias entre os grupos que o formam. Segundo, por fazer afirmações sobre a escravidão e as suas consequências para a formação do Brasil Moderno que o desenvolvimento das ciências sociais no Brasil já ensejou há no mínimo 30 anos. E o pior: apresentando-as como novidades. Em seu embate com o pensamento social (ou melhor dizendo, em sua negação deste), Jessé Souza se apresenta como o descobridor de uma nova e nunca dita verdade: a escravidão nos explica. Como novidade, a grande tolice da nossa inteligência foi nunca a ter percebido.


Desde o final do século XIX intelectuais das mais diversas áreas do conhecimento têm se dedicado à compreensão da instituição escravista e do processo de emancipação dos sujeitos escravizados, ora como uma forma de explicar o passado colonial, ora como um modo de atuação política. Assim, esse campo de estudos se constituiu não apenas como um objeto científico, mas, principalmente, como um campo de batalha ideológica. Exatamente por isso, alguns de seus principais nomes no mundo, como Eric Williams, W. E. B. Dubois e, no caso brasileiro, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes, estiveram ativamente ligados às lutas políticas e sociais que atravessaram o século XX.


A historiografia da escravidão é um dos assuntos que ligam a experiência histórica de quatro continentes, constituindo o mundo atlântico e também o mundo índico. Por meio de uma longuíssima duração, Europa, África, Américas e Ásia passam a ser, a partir do século XVI, espacialidades conectadas pelo tráfico de pessoas e mercadorias. Há, já no século XIX, uma série de escritos dedicados à compreensão histórica deste processo. Em um primeiro momento, tais estudos objetivavam a própria luta pelo fim do sistema, como o caso de O abolicionismo, de Joaquim Nabuco, que concebia um projeto de emancipação e produzia um discurso negativo em torno das consequências da escravidão para a sociedade brasileira. O tema teve desdobramentos diversos em obras de Oliveira Vianna, Nina Rodrigues, Sílvio Romero e Euclides da Cunha. Contudo, foi durante o século XX que se consolidou nos estudos históricos e sociológicos, tendo como principal referência a obra já citada de Gilberto Freyre.


Posteriormente, as teses polêmicas e que alimentaram a ideia, então em voga, de democracia racial, seriam questionadas com voracidade, sobretudo por cientistas sociais ligados à assim chamada Escola Paulista de Sociologia, encabeçada, sobretudo, por Florestan Fernandes.


Nomes como Fernando Henrique Cardoso, Jacob Gorender , Octávio Ianni, Emília Viotti da Costa e o próprio Florestan Fernandes estabeleceram diálogo a partir de 1950 com as obras de estadunidenses como Kenneth M. Stamp , Franklin Frazier , Stanley M. Elkins , Robert W. Fogel e Stanley L. Engerman . Tanto no Brasil como nos Estados Unidos esses estudos evidenciavam, entre outras coisas, o caráter violento do sistema escravista, relacionando-o com aspectos estruturais capitalistas, e se concentravam principalmente no processo de coisificação do escravo. De modo geral, alegaram existir duas formas de experiências possíveis aos escravizados: ou questionaram a escravidão através do embate direto, como nas revoltas, e por isso reivindicaram sua própria humanidade ou, devido à extrema violência inerente ao sistema, aceitaram passivamente sua condição como mercadoria, confirmando-se como coisa.


Tanto o mito da democracia racial, reiterado por Freyre na década de 1930, quanto a teoria do escravo coisificado, alimentada pela Escola Paulista de Sociologia, foram criticados pela historiografia das décadas de 1970 e, principalmente no Brasil, de 1980. Influenciados pelas obras de E. P. Thompson e Eugene Genovese, pesquisadores voltaram-se para a complexa relação entre senhores e escravizados, percebendo que entre a passividade e a revolta, os escravos haviam protagonizado um cotidiano de negociações e conflitos, articulando dinâmicas sociais que lhes possibilitaram criar formas de melhor sobrevivência na dura experiência escravista, sem abrir mão da luta pela liberdade, que continuava no horizonte de suas expectativas.


É nesse momento que surgem novos temas para a compreensão da escravidão, principalmente aqueles que destacam o ponto de vista do cativo. No Brasil, esses estudos se consolidaram a partir da década de 1980, em torno do ano do centenário da Abolição. Silvia Lara, Kátia Mattoso, João José Reis, Célia Marinho de Azevedo, Maria Helena Machado, Sidney Chalhoub e Hebe Maria Mattos são alguns exemplos de historiadores que se debruçaram sobre a complexa trama cotidiana da escravidão a partir dessa perspectiva.


Esse panorama destaca autores de maior influência nos debates. Mas não representa sequer 5% da totalidade dessa produção. Poderíamos citar o estado da arte na América Latina, os intelectuais africanos, os estudos pós-coloniais, os historiadores asiáticos etc. Mesmo no Brasil, seja no interior do pensamento social brasileiro, seja em tantas linhas de pesquisa que constituem os programas de pós-graduação, há uma vasta produção que não deixa dúvidas quanto à centralidade do tema da escravidão para a compreensão da formação social brasileira. É possível continuarmos afirmando, como Jessé Souza, que há poucos estudos sobre a escravidão? Que, com tanta diversidade teórica, são eles de qualidade questionável?


Jessé Souza está atrasado, como parte de seus leitores que descobrem a escravidão como tema para pensar o Brasil agora, a caminho da 3ª década do século 21. Sua fala está em completo descompasso com o desenvolvimento científico nacional e internacional sobre o tema. Não há de se negar a importância de sua obra. Mas também não é mais possível fingir que a escravidão é tema novo e nunca antes considerado na compreensão da nossa formação. Souza luta contra gigantes, mas eles são moinhos de vento. Sancho Pança contemporâneo diria: “bem-vindo ao Deserto do Real”.


¹ Mestre em Psicologia Social, PUC-SP, membro do Nutas (Núcleo de Estudos de Trabalho e Ação Social) PUC-SP, professor convidado do Celacc -ECA/USP e integrante do NEPAFRO.

² Historiador e educador, mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo, doutorando em História Social pela USP e integrante do NEPAFRO.

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