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A dimensão subjetiva das relações raciais no Brasil contemporâneo

Atualizado: 3 de jul. de 2020

Por Marcio Farias*¹


O dilema hodierno do negro brasileiro é saber se houve transformações nas velhas formas do seu viver ou se tudo permaneceu do jeito que foi sendo. Entre as margens que separam a ilusão da desilusão passa um rio em que as águas de repente ficaram turvas. Neste caso, o tempo é rei e só ele poderá dizer se essa ou aquela sentença tem validade.


Ainda assim, tateando o terreno, é possível arriscar algum esboço sobre o estado da arte nas relações raciais do Brasil contemporâneo e as possíveis conexões entre objetividade e subjetividade. No período do neodesenvolvimentismo lulista, inserido predominantemente nas frações precarizadas da classe trabalhadora, ainda assim, a população negra alçou voos planejados pelas gerações precedentes e, por meio de ações afirmativas ou outras políticas sociais, caminhou sentido à inclusão. No entanto, existiram pedras no meio do caminho. Esses passos firmes ressuscitaram o velho mal estar que irrompe em momentos de tensão: um racismo declarado das classes médias e de setores da burguesia nacional temorosos com a nova onda negra.


Por isso, quando retomamos clássicos da psicologia brasileira sobre relações raciais, evidenciam-se, neste período, algumas permanências e rupturas naquilo que foram os objetos de análise dessas obras e como este mesmo fenômeno, a dimensão subjetiva do racismo, apresenta-se no Brasil contemporâneo. Em Atitudes de pretos e mulatos em São Paulo (1945/2010), de Virgínia Leone Bicudo, texto escrito diante da nascente sociedade urbana e industrial brasileira e lastreado pelo Movimento Negro de caráter integracionista, temos a apresentação de um estudo investigativo cujos apontamentos nos orientam a perceber que, naquele período, “pretos e mulatos” da “classe inferior” –categorias adotadas pela autora-, em relação aos seus patrícios das classes intermediárias tomavam atitudes distintas diante do enfrentamento ao racismo. Se, entre os segmentos populacionais negros pertencentes às classes médias o enfrentamento ao racismo pressupunha uma afirmação positiva ao seu pertencimento racial, uma vez que a ascensão social não excluiu os “designíos da cor”, entre os negros das camadas sociais mais pauperizadas, a não afirmação da consciência racial era a atitude comum para evitar um estranhamento e uma possível tensão, sobretudo com os brancos, tanto pobres como de outras classes sociais.



A socióloga e psicanalista brasileira Virgínia Leone Bicudo (1910-2003)

Por outro foco, Neusa Santos Souza também observou os aspectos subjetivos e emocionais presentes no processo de ascensão social de negros. Seu texto se inscreve diante da ascensão do Movimento Negro Contemporâneo. Assim, no livro Tornar-se negro” (1983) defende a tese de que ser negro não é um em si, subsidiada na historicidade imediata, mas sim um vir a ser, um salto ontológico do ponto de vista da consciência, um tornar-se.


A partir da narrativa de histórias de vida de negros e negras que ascenderam socialmente, afirma:


Tornar-se negro, portanto, ou consumir-se em esforços por cumprir o veredito impossível- desejo do Outro- de vir a ser branco, são alternativas genéricas que se colocam ao negro brasileiro que responde positivamente ao apelo da ascensão social(...) a construção de uma nova identidade é uma possibilidade que nos aponta esta dissertação, gerada a partir da voz de negros que, mais ou menos contraditória ou fragilmente, batem-se por construir uma identidade que lhe dê feições próprias, fundada, portanto, em seus interesses, transformadora da História- individual e coletiva, social e psicológica (Souza, 1983, p. 78).

Tanto Neusa Santos Souza como Virgínia Leone Bicudo escreveram suas teses diante de diferentes momentos do Brasil desenvolvimentista. De uma ponta à outra, apreenderam o aspecto subjetivo daquilo que era conjuntural e estrutural do racismo brasileiro em centros urbanos do sudeste.


Daquilo que tem valor heurístico e clínico, o racismo ainda marca profundamente a formação da subjetividade do povo brasileiro. No entanto, vivenciamos um período em que o tema ganha nova configuração. Aquele Movimento Negro que emerge diante do fim do ciclo desenvolvimentista brasileiro coloca suas bandeiras e pautas politicas reparatórias em prática via políticas sociais no contexto do Brasil neodesenvolvimentista.


A ideia de pertencimento racial como valor identitário positivo se alastrou por um setor mais amplo do que aquele movimento negro de classe média do Brasil desenvolvimentista. Os motivos são de várias ordens, têm múltiplas determinações (os movimentos culturais e estéticos nas periferias dos grandes centros urbanos que explodem pelo Brasil inteiro nas décadas de 1990 e anos 2000, por exemplo). No Brasil neodesenvolvimentista o precariado negro também se afirma positivamente e brada: poder para o povo preto, empoderado, resistente e que quer representação, por todos os meios necessários.


Tempos depois, o lulismo foi golpeado diante do revés econômico e da quebra do pacto civilizatório das elites e classes médias para com um neodenvolvimentismo inclusivo. E a população negra, nesse contexto, se viu e se vê diante de dilemas. Grande parte de uma plataforma de atuação material e simbólica do movimento negro contemporâneo que consagrou uma nova gramática social e que disputava a narrativa do que é ser brasileiro começa a não dar mais conta das vivências. A frase passa a superar em muito o conteúdo e produzir cisões entre a cotidianidade e seus signos. Partindo desse chão e suas mediações, entender a dinâmica da moderna luta de classes brasileira e sua dimensão subjetiva, passa, em primeiro lugar, pela validação e verificação daquilo que permaneceu e daquilo que mudou, neste caso, tendo como base os livros supracitados. Tanto em Virgínea Leone Bicudo como em Neusa Santos Souza, a afirmação positiva da identidade negra passava pelo negro em ascensão, possuidor de uma trajetória que o diferenciava economicamente dos seus patrícios. Em suma, o negro militante, em geral, pertencia efetivamente à classe média.


No período lulista, essa margem de identificação se alastra. Para além da classe média, um amplo setor da classe trabalhadora negra brasileira passa a ter “atitudes” condizentes com o “tornar se negro”. O problema está justamente na condição precária desses sujeitos enquanto inserção nas relações sociais de produção. Aqui, o filósofo italiano Antônio Negri apresenta uma acertada crítica aos rumos da esquerda brasileira capitaneada pelo PT e seus erros táticos e estratégicos:


Provavelmente aqui está o nó de um dos pontos centrais da crise do PT, sua perda de contato (ou de alguma forma da capacidade de endereçar-se) com o proletariado negro do sistema industrial em crise (se não em dissolução) nas periferias das grandes metrópoles (nos estados de São Paulo e Minas Gerais, particularmente). É dentro da ex-classe operária (dividida agora entre nova classe média e multidões desempregadas e precarizadas) que se revela a crise mais pesada para a esquerda – lá onde ela era hegemônica (NEGRI, S/N, 2017).

Se no começo do Brasil neodesenvolvimentista certa plataforma de atuação do Movimento Negro ampliou o leque da disputa hegemônica, sobretudo sobre o mito criado pela elite nacional que dizia sobre harmonia social, agora, diante da crise, passa da resistência para a conformação, promove apenas uma revolução formal, mas não alcança o conteúdo reprimido das relações raciais no Brasil contemporâneo.


No campo da dimensão subjetiva da realidade, principalmente no que diz respeito à demanda clínica, o novo negro militante do período lulista cria uma demanda diante de frases que estão deslocadas e que superam, em algumas circunstâncias, o conteúdo do real. Ainda mais, busca numa fantasiosa clínica identitária o remédio para suas dores. Elegeu a psicóloga negra como sua redentora. Cabe mediar essa investida. Uma vez que a psicologia brasileira, sobretudo no campo clínico, não deu a devida escuta à experiência negra, é possível que essa psicóloga negra, enfim, esteja ao menos atenta a esta questão. E de fato, existe um duplo estatuto em potencial nesse profissional que pode lhe qualificar a escutar diante desse pedido ao ter a experiência enquanto sujeito negro no Brasil e por ter o aparato técnico diante da demanda. Por tanto, poderia traduzir essa queixa e dar prosseguimento a um projeto terapêutico condizente com a necessidade real do paciente.


No entanto, toda tradução é uma traição, o manejo clínico não é algo que imputa apenas uma essencialidade do vivido, é mais que isso, é o deslocar a demanda diante daquilo que é efetivamente o conflito do sujeito e suas origens. A clínica identitária, ao contrário, é a clínica do narcisismo político, é a redução sociológica da complexidade do que é a individualidade.


Os desafios para se pensar a dimensão subjetiva do racismo no Brasil contemporâneo passam pela profunda compreensão sobre certos limites daquilo que outrora foi emancipador. Ao contrário do que estava colocado para Virgínia Leone Bicudo e Neusa Santos Souza no que diz respeito às possíveis beneficies da afirmação enquanto negro naquela sociedade de classes racializada no país de meados do século XX, na abertura do XXI, com as novas configurações do capitalismo brasileiro, as novas veredas das relações raciais no Brasil são mais diversificadas. A afirmação do ser negro contemporâneo têm, ao menos, mais elementos mediadores dos do que até aqui foram significados.


Neste cenário, a psicologia, no afã de se redimir e politizar a escuta, não deve atender ansiosamente a demanda ansiosa. Há uma necessidade constante de ontologizar a cultura e a política. Na sociedade de classes, a luta pela ideação e representação passa, necessariamente, pelas circunstâncias e ações humanas diante daquilo que ocorre em seu cotidiano.


Desconsiderar a experiência, vivência e elaboração dos sujeitos, escolhendo símbolos em detrimento daquilo que se passa no dia a dia dos que a fizeram e a fazem, é cristalizar a cultura e limitar as possibilidades de emancipação. Os símbolos não podem substituir e/ou subestimar os que ele representa. Afinal, quem produziu a riqueza precisa ter acesso ao produto do seu labor.


Como consideração final aponta-se para uma nova ordem no campo das relações sociais contemporâneas no que diz respeito ao tema das relações raciais, na medida em que as últimas décadas traços marcantes dos pactos para a formação nacional foram rompidos por conta da maior mobilidade do trabalho de negros e negras. Essa circulação menos restrita de um conjunto maior da população negra, diante do advento da crise econômica, politica e social efetivou o verdadeiro mal estar contemporâneo, aspectos que não se apresentavam para as autoras analisadas. Por isso, as novas veredas das relações sociais e raciais no Brasil exigem uma produção mais condizente com as novas circunstâncias, resguardando aquilo que tanto Virgínia Leone Bicudo como Neusa Santos Souza em suas obras clássicas podem ainda ajudar na compreensão da dimensão subjetiva da realidade racializada brasileira.

Referências Bibliográficas

BICUDO, Virgínia Leone. Atitudes de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Sociologia e Política, 2010, (1945).

NEGRI, Antônio. Impressões de uma visita ao Brasil: Para onde vai o PT? Disponível em: <http://rosaluxspba.org/antonio-negri-para-onde-vai-o-pt/>. Acesso em: 11/03/2017.

SANTOS, Neusa Souza. Tornar-se negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983.


*Mestre em Psicologia Social, PUC-SP, membro do Nutas (Núcleo de Estudos de Trabalho e Ação Social) PUC-SP, professor convidado do Celacc -ECA/USP e integrante do NEPAFRO.


¹ Este texto é um excerto do capítulo de livro : “Processo civilizatório, mitos fundadores e pacto lulista: a dimensão subjetiva das relações raciais no Brasil contemporâneo” In: Glaucia Tais Purin Maria Cristina Dancham Simões Deivis Perez Eduardo Pinto e Silva. (Org.). Psicologia Social: análises críticas sobre histórias interditadas e práticas resistentes. 1ed. Porto Alegre: Abrapso, 2019, v. IV, p. 143-160.

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